Resultados da Ordem e das avaliações oficiais divergem. Para
especialistas, fiscalização de cursos deve aumentar. Para o MEC, são
suficientes
Os índices de aprovação no exame obrigatório para quem quer ser
advogado no Brasil mostram que a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e o
Ministério da Educação divergem em resultados e percepção sobre a
situação dos cursos de Direito no País. Um bom desempenho nas avaliações
oficiais não garante muitos bacharéis aprovados no Exame de Ordem. E
estar no topo do ranking da OAB não significa pertencer aos melhores
avaliados pelo MEC.
As piores na OAB na avaliação do MEC
Veja os conceitos das 30 piores instituições no ranking da OAB pelo índice do Ministério da Educação (de 1 a 5)
As discrepâncias – minimizadas pelos dois órgãos, que apontam os
objetivos diferentes das duas avaliações para justificá-las – revelam
fragilidades de um sistema que cresceu muito nos últimos anos: o ensino
superior. A Ordem dos Advogados do Brasil (responsável pela regulação do
exercício da advocacia no País), professores, alunos e profissionais da
área afirmam que o número de cursos de Direito aumentou de forma
desenfreada e a fiscalização da qualidade de ensino realizada pelo MEC é
insuficiente. Para o governo, o controle feito atualmente é adequado.
“Abriram cursos demais nos últimos anos. Há muitos empresários
interessados no lucro e não na difusão do saber, por isso o Estado
precisa aumentar a fiscalização e criar critérios técnicos rigorosos de
autorização e avaliação”, opina o presidente da OAB, Ophir Cavalcante.
Pelas regras da supervisão de cursos, 16 conselhos profissionais já dão
pareceres sobre a abertura de novas graduações. A Ordem dos Advogados é
uma delas, mas não tem poder de decisão.
O presidente da OAB afirma que o Ministério da Educação e o Conselho
Nacional de Educação “cedem à pressão de empresários” e liberam a
abertura de graduações em locais onde há muitas vagas. “Não se pode
ceder às pressões políticas. De 33 cursos autorizados pelo MEC, a Ordem
deu parecer contrário a 32. O ministério não se utiliza do critério de
necessidade social do profissional na região para liberar a oferta do
curso”, lamenta.
Luís Fernando Massonetto, secretário de Regulação e Supervisão da
Educação Superior, diz que o MEC hoje tem subsídios para regular os
cursos e supervisioná-los. Desde 2007, quando um decreto com regras para
fiscalização do ensino superior foi publicado, ele diz que os
procedimentos vêm sendo aprimorados. Lembra, também, que os critérios
utilizados para autorizar um curso superior são: composição do corpo
docente, infraestrutura e projeto pedagógico, além da avaliação de
especialistas do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais
(Inep). “No caso do Direito, o parecer da OAB é um dos fatores
considerados, não é o único”, diz o secretário.
“A partir disso, o MEC consolidou os trâmites de um processo complexo e
recente que é o da supervisão dos cursos superiores. Esses cursos foram
os primeiros a passar por esse processo, mas o objetivo é que a rotina
aconteça com todas as graduações”, diz Massonetto.
Para o secretário, o MEC estabeleceu “consequências” às instituições com
mau desempenho nas avaliações. Os cursos de Direito, Medicina e
Pedagogia foram os primeiros submetidos às novas regras. De acordo com
Massonetto, em 2007, 79 cursos assinaram acordos para sanear
deficiências e 20 mil vagas foram suspensas, que representavam 45% do
total oferecido por essas instituições. Em junho, outras 10.912 vagas de
cursos com resultado insatisfatório no CPC foram suspensas. Quatro
cursos foram desativados por não-cumprimento do acordo.
Funções distintas
Ophir faz questão de ressaltar que a maior parte das instituições com
bons resultados na OAB têm bons conceitos nas avaliações do MEC, apesar
das divergências reveladas pelos números. Ele descarta, porém, que o
Exame de Ordem possa ser extinto ou substituído pelas provas aplicadas
pelo governo federal. “O Enade não é uma prova que afere aptidão
técnica. O foco é outro, mas o exame dá um bom panorama sobre o ensino
jurídico no País e é uma forma de fiscalização indireta dos cursos”,
comenta Ophir Cavalcante, presidente da Ordem.
Massonetto concorda que os objetivos das avaliações são distintos. “O
Exame de Ordem lida com a questão da regulação profissional e a
competência do Ministério da Educação é a de regulação acadêmica dos
cursos superiores”, afirma. Ele admite, no entanto, que elementos como a
lista de instituições com nenhum aprovado podem ser usados como
subsídio nas avaliações.
Cezar Britto, ex-presidente da OAB, defende que os desempenhos das
instituições no Exame de Ordem se tornaram “instrumentos fortes” para
que o MEC feche cursos ruins. “As instituições ruins passaram a perder
alunos e lucro. O exame está melhorando o ensino jurídico e, quanto mais
isso acontecer, mais advogados teremos, o que desmonta a tese de
reserva de mercado”, diz. Britto defende que é preciso exigir mais
qualidade das faculdades. “Não podemos deixar quem busca ascensão social
se tornar mais vítima ainda.”
Divergências
Algumas diferenças nas duas avaliações chamam a atenção. Das 30
universidades com maior proporção de bacharéis aptos para advogar, 18
ganharam conceito 4 no último CPC. Outras sete, porém, tem nota 3 –
satisfatória – e quatro obtiveram resultados ruins, como a Universidade
Federal de Sergipe (UFS). A instituição lidera o ranking da OAB, mas só
alcançou conceito 2 na última avaliação do Ministério da Educação.
As melhores na OAB na avaliação do MEC
Veja os conceitos das 30 melhores instituições no ranking da OAB pelo índice do Ministério da Educação (de 1 a 5)
O chefe de departamento do curso de Direito da UFS, José Anderson
Nascimento, diz que a nota baixa é consequência de um boicote dos alunos
ao Enade. As Federais do Espírito Santo (UFES) e de Rondônia (Unir) e a
Estadual de Feira de Santana (UEFS) também tiveram desempenho ruim.
“Houve um complô contra o Enade. Acredito que agora estamos com outra
concepção e teremos outro resultado na próxima edição”, afirma
Nascimento.
Apesar de o MEC ter assinado termos para saneamento de deficiência com
várias instituições que tiveram conceito ruim, a visita dos
especialistas do ministério não chegou à UFS ainda, segundo Nascimento.
“Há uma perspectiva de sermos avaliados pelo MEC, mas por enquanto não
aconteceu nada. A boa classificação na OAB aponta esse contra-senso (com
o resultado ruim no Enade)”, diz.
O coordenador do curso de Direito da Faculdade Campo Limpo Paulista
(FacCamp), Mauro Cabral, critica o nível de exigência do Exame de Ordem e
defende a extinção dele caso não haja mudanças. “A prova não afere mais
conhecimentos mínimos para exercer a advocacia. Ela se tornou um
concurso público, o que é uma distorção. Está havendo exagero na
cobrança e se uma prova existe para reprovar, ela ceifa um direito de
exercer uma profissão”, opina.
A FacCamp não aprovou candidatos em dezembro de 2010 (73 fizeram a
prova) e, no último exame, dois bacharéis dos 58 inscritos passaram na
prova e entraram no ranking preliminar da OAB (sem recursos). A lista só
considerou os dados referentes aos candidatos que já concluíram o curso
das instituições que tiveram mais de dez inscritos. Além deles, outros
22 estudantes participaram da prova e mais dois passaram. No CPC, o
desempenho da instituição também não foi bom: 2.
Cabral ressalta que diferentes aspectos do curso e da instituição pesam
nas avaliações do ministério. Mas ele lembra que a motivação dos
estudantes é fundamental para garantir bons resultados em qualquer
avaliação: são eles que fazem as provas. “Muitos não têm interesse. Nós
oferecemos aulas específicas para o Exame de Ordem de graça. Poucos
frequentam, infelizmente. Só depois de formados e reprovados no exame é
que a ficha cai”, lamenta.